Zema e os “intocáveis”, a busca por um inimigo para tentar crescer nas pesquisas

O presidenciável Romeu Zema parece ter entendido que discurso de boa gestão, aprovação administrativa e imagem de outsider já não bastam para viabilizar uma candidatura nacional. Há meses ele patina nas pesquisas, sem romper a faixa dos 5%, e percebeu que, para entrar de fato no jogo, teria de disputar o conflito que organiza a política nacional.

É isso que tenta fazer ao lançar a ideia dos “intocáveis” e mirar no Supremo Tribunal Federal. O movimento não é improvisado. Zema busca construir um adversário visível, nacionalizar seu discurso e deixar para trás a imagem de governador eficiente, porém politicamente frio. Em vez de insistir apenas na credencial de gestor, passa a testar uma linguagem de confronto, mais próxima do tom que move a disputa nacional.

Esse movimento não se limita às críticas ao STF. Ao defender privatizações, inclusive de empresas como Petrobras, Banco do Brasil e Correios, e ao falar em corte de privilégios, Zema tenta ampliar o mesmo enquadramento, a ideia de que existem estruturas protegidas, castas e setores imunes ao controle público. É uma linguagem conhecida na política brasileira, associada ao velho discurso contra os “marajás”, adotado por Fernando Collor na campanha presidencial de 1989, e agora adaptada à direita para o ambiente digital.

O repertório mobilizado por Zema também dialoga com uma gramática discursivo-performativa que identifiquei em minha pesquisa de mestrado sobre a comunicação digital da nova direita. Não por acaso, ele aciona bandeiras como liberdade de expressão, combate a privilégios, denúncia de abuso de poder e desconfiança em relação às instituições. Esses temas circulam com força na direita brasileira, sobretudo num momento de desgaste da Corte, marcado pelo aumento da rejeição e pela queda da confiança em pesquisas recentes.

A construção de um inimigo comum é uma das operações centrais desse tipo de comunicação. Ela organiza o conflito, oferece um alvo reconhecível e permite transformar insatisfações difusas em identidade política. O inimigo pode ser uma elite, uma instituição, um partido, uma imprensa ou um sistema apresentado como distante, corrupto ou hostil ao povo. No caso de Zema, o STF passa a ocupar esse lugar. O objetivo é produzir uma divisão nítida entre quem diz enfrentar os “intocáveis” e quem seria parte da engrenagem que os protege.

Ao explorar essa conjuntura, Zema tenta deixar o lugar de gestor técnico e entrar de vez na disputa simbólica. Ainda assim, esse embate exige cuidado com os limites impostos pela democracia.

O problema é que esse terreno já tem dono. O ataque ao STF foi convertido em marca política do bolsonarismo há anos. Quando Zema entra nessa arena, não inaugura uma frente nova, apenas recorre a uma fórmula já associada ao principal nome que ainda domina esse eleitorado. Em vez de se diferenciar, corre o risco de parecer cópia.

Há outro obstáculo. Nem todo inimigo político produz apoio para além da própria base. Para gerar voto, o conflito precisa ser percebido como relevante na vida concreta das pessoas. O eleitor precisa enxergar relação entre o alvo escolhido e os problemas que atravessam sua rotina. Quando isso não acontece, a narrativa até ganha força no digital e na mídia tradicional, porque chama atenção, produz barulho e mobiliza nichos, mas não se transforma em base eleitoral mais sólida.

Essa dificuldade se amplia porque o cenário nacional já está organizado pela polarização entre Lula e Bolsonaro, que construíram identidades, linguagens e adversários bem definidos. Quem tenta surgir fora desse eixo precisa construir um conflito que seja seu e faça sentido para mais gente.

Zema acertou ao perceber que sem antagonismo não cresce. Erra, porém, ao investir num adversário que não diferencia sua posição nem amplia seu alcance. Sem um antagonismo próprio, pode continuar bem avaliado em Minas, mas seguirá com dificuldade para transformar visibilidade em competitividade nacional.

Resta saber se esse movimento busca apenas tirá-lo da estagnação nas pesquisas ou se já funciona como aceno para ocupar espaço numa eventual chapa do bolsonarismo em 2026.

Vanessa Marques é pesquisadora, professora e consultora em comunicação política, com mais de 20 anos de atuação no Legislativo, no Executivo, em campanhas e em mandatos. É mestra em Indústrias Culturais e Comunicação pela Universitat Politècnica de València, na Espanha, mestra em Comunicação Digital pelo IDP, em Brasília, e pós-graduada em Economia e Ciência Política. É coautora de livro na área da comunicação política, além de autora de artigos de opinião e publicações científicas.

Artigo publicado no blog do Compol Brasil: https://2026.compol.xyz/blog/zema-e-os-intocaveis-a-busca-por-um-inimigo-para-tentar-crescer-nas-pesquisas-mogec3uh

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