A segunda punhalada: a guerra pela herança simbólica do bolsonarismo

Os conflitos entre os filhos de Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro não são novos. O vídeo divulgado por Michelle, a poucos meses da eleição, também não decorre apenas de uma divergência familiar. Há diversas camadas nessa manifestação. Uma delas ajuda a compreender a disputa pela sucessão dentro do bolsonarismo.

Toda liderança personalista enfrenta um problema quando o líder deixa de ocupar plenamente o centro da cena política. A disputa deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser uma disputa pela interpretação de seu legado.

Foi exatamente isso que ocorreu na manifestação de Michelle Bolsonaro sobre o conflito envolvendo Flávio Bolsonaro. A palavra que organiza seu discurso não é Deus, família ou mulheres. É “marido”. Jair Bolsonaro aparece como a fonte de legitimidade de toda a narrativa. Seus argumentos retornam continuamente à relação construída com ele.

Em movimentos organizados em torno de um líder carismático, a autoridade não decorre de partidos ou programas. Ela depende da proximidade simbólica com a figura central do movimento.

Michelle compreende essa lógica e decidiu ir ao ataque direto. Prova disso é que, em nenhum momento, ela apresenta um projeto político próprio. Ela se coloca como intérprete autorizada da vontade de Bolsonaro.

Sua narrativa segue uma sequência clara. Recorda que esteve ao lado do marido nos momentos difíceis, afirma conhecer seus valores, reivindica fidelidade ao projeto político e contrapõe essa fidelidade ao pragmatismo eleitoral. É nesse ponto que o discurso deixa de ser pessoal e passa a ser político.

O vídeo de Michelle Bolsonaro revela que a principal tensão no campo conservador deixou de ser eleitoral e passou a girar em torno da legitimidade para representar o legado do ex-presidente.

O vídeo de Michelle Bolsonaro revela que a principal tensão no campo conservador deixou de ser eleitoral e passou a girar em torno da legitimidade para representar o legado do ex-presidente.Reprodução

Quando afirma que não trocará valores por pragmatismo oportunista, Michelle cria uma divisão entre quem preserva a identidade original do bolsonarismo e quem estaria disposto a flexibilizá-la para ampliar alianças. Embora não cite Flávio Bolsonaro, o contexto conduz inevitavelmente a ele.

A disputa, então, deixa de ser sobre capacidade eleitoral. Passa a ser sobre quem representa o verdadeiro Bolsonaro. A expressão “punhalada” reforça esse movimento.

A facada de 2018 consolidou Bolsonaro como vítima de um inimigo externo. A punhalada evocada por Michelle altera essa narrativa. Agora, a ameaça vem de dentro. A metáfora reorganiza a memória do movimento. O conflito deixa de separar bolsonarismo e adversários externos e passa a distinguir os fiéis daqueles que teriam se afastado dos princípios originais.

Esse mecanismo é comum em processos de sucessão de lideranças personalistas. Quando não existem regras institucionais para definir herdeiros, a disputa desloca-se para o campo simbólico. Quem reivindica a memória do líder reivindica também o direito de interpretar seu legado.

Michelle utiliza exatamente essa estratégia. Não reivindica autoridade própria, reivindica autoridade derivada da convivência, da lealdade e da intimidade com Bolsonaro.

Seu vídeo, portanto, não representa apenas uma crise familiar. Representa uma disputa pela herança simbólica do bolsonarismo. A pergunta deixa de ser quem será o próximo candidato e passa a ser quem possui legitimidade para falar em nome de Bolsonaro. Essa é a verdadeira batalha que hoje divide o bolsonarismo.

Vanessa Marques é consultora política, professora e pesquisadora em comunicação política há 21 anos. Mestre pela Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, e mestre em Comunicação Política pelo IDP. Pós-graduada em Economia e Ciência Política, atua com análise de discurso, cultura política e estratégias de comunicação.

Artigo originalmente publicado no Congresso em Foco: https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/120178/a-segunda-punhalada-a-guerra-pela-heranca-simbolica-do-bolsonarismo.

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