Ao tentar novamente se apresentar como alguém “de fora” do sistema, o pré-candidato à Presidência da República em 2026, Romeu Zema, aposta na figura do antipolítico, que critica o establishment mesmo ocupando o centro do poder. Depois de sete anos à frente do governo de Minas Gerais, é difícil convencer o eleitor de que ainda ocupa uma posição externa ao sistema político. Ainda assim, a insistência nessa identidade não é casual. Ela faz parte de uma estratégia recorrente da direita: construir narrativas em que lideranças se apresentam como outsiders, mesmo quando já ocupam posições institucionais consolidadas. Bolsonaro fez isso em 2018.
Esse recurso foi amplamente explorado por lideranças da direita na última década. A figura do outsider funciona como um instrumento político capaz de mobilizar a desconfiança em relação às instituições e reforçar a ideia de ruptura com o sistema. Trata-se menos de uma descrição objetiva da trajetória do candidato e mais de uma narrativa moldada para gerar identificação com eleitores insatisfeitos com a política tradicional.
Os dados recentes da Genial/Quaest, no entanto, sugerem limites para essa estratégia no caso de Zema. O governador aparece com 4% a 5% das intenções de voto nos cenários testados, é desconhecido por 53% do eleitorado e, entre os que o conhecem, 34% afirmam que não votariam nele, contra 13% que declaram intenção de voto. No início da disputa, rejeição é variável decisiva. Quando o conhecimento cresce acompanhado de resistência, a margem de expansão diminui.
A segmentação ideológica ajuda a explicar esse limite. Entre bolsonaristas que o conhecem, 40% rejeitam seu nome, entre lulistas, 39%. Seu melhor desempenho aparece na direita não bolsonarista, onde 30% dos eleitores que o conhecem afirmam que votariam nele. Trata-se de um grupo relevante, mas insuficiente para sustentar uma candidatura nacional sem ampliar sua base.
Novos dados devem ajudar a esclarecer esse cenário nas próximas semanas. A Genial/Quaest divulgará uma nova rodada de pesquisa sobre a eleição presidencial de 2026, com cenários de primeiro e segundo turno. O levantamento será o primeiro após as novas revelações do caso Master. A nova pesquisa poderá oferecer elementos adicionais para compreender como esses episódios recentes influenciam a disputa política e a percepção do eleitorado.
O problema para Zema, portanto, não é apenas a polarização. A estratégia adotada não dialoga com nenhum dos três campos decisivos da disputa: não penetra no campo bolsonarista, não reduz resistência no campo petista e tampouco mobiliza de forma consistente o eleitorado de centro, que poderia ser seu território mais promissor. O resultado é uma candidatura com pouca força no debate nacional.
Esse cenário ajuda a explicar os movimentos recentes no campo da direita. Diante da dificuldade de viabilizar uma candidatura competitiva, já circulam rumores de que Zema poderia integrar uma eventual chapa presidencial como vice do senador Flávio Bolsonaro. A hipótese, ainda informal, indica que parte desse campo político busca alternativas para reorganizar sua estratégia eleitoral. A questão é saber se, na posição de vice, Zema conseguiria reduzir a rejeição que enfrenta entre eleitores bolsonaristas ou se essa resistência continuaria a limitar sua utilidade eleitoral para a chapa.
Campanha presidencial exige leitura adequada do ambiente político. É preciso disputar um campo com clareza ou construir uma alternativa coerente com a própria trajetória. Insistir em uma identidade que já não corresponde ao lugar institucional que o candidato ocupa revela dificuldade de adaptação à dinâmica real da disputa. O cenário ainda pode se alterar ao longo da campanha, mas os dados disponíveis hoje indicam um teto limitado de crescimento eleitoral.
Vanessa Marques é consultora política, palestrante, professora e pesquisadora em comunicação política há 21 anos. É mestre pela Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, e mestre em Comunicação Política pelo IDP, além de pós-graduada em Economia e Ciência Política.