A nova geração de influenciadores políticos desafia a política tradicional e as celebridades

As eleições de 2026 evidenciaram a força de uma nova geração de influenciadores políticos na disputa por espaço e influência na Câmara dos Deputados. À direita, Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, e Lucas Pavanato, em São Paulo, ultrapassaram 3 milhões de votos cada. À esquerda, Erika Hilton superou 1,5 milhão em São Paulo, enquanto Ana Elisa recebeu mais de meio milhão em Minas Gerais.

Na mesma eleição, parlamentares experientes, como Rui Falcão (PT) e Gilberto Nascimento (Podemos), e personalidades conhecidas do público, como Tiririca, Val Marchiori, Antônia Fontenelle, Rachel Sheherazade e a Menina da Bota, ficaram de fora da Câmara dos Deputados. As derrotas atingiram diferentes campos políticos e mostraram que nem a trajetória parlamentar, nem a fama, nem um número significativo de seguidores nas redes sociais garantem votos. A diferença está na capacidade de transformar visibilidade em identificação política e apoio eleitoral.

A polarização tem papel central nesse processo. Embora representem campos políticos distintos, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Erika Hilton e Ana Elisa têm características em comum: defendem publicamente suas crenças e valores, assumem posições nos debates nacionais e mantêm uma relação permanente com seus seguidores. Nas redes sociais, as pessoas tendem a acompanhar lideranças com posições próximas às suas, encontrando conteúdos que reforçam suas convicções e, muitas vezes, a rejeição aos adversários. Essa identificação fortalece o sentimento de pertencimento e estimula a participação política.

Na comunicação política, símbolos reconhecíveis, mensagens claras e a identificação de um inimigo comum ajudam a construir vínculos com o público. Esse inimigo não precisa ser uma pessoa ou um partido. Pode ser a fome, a desigualdade, a falta de creches, o abandono e os maus-tratos aos animais. São causas que mobilizam pessoas em torno de valores compartilhados. Em um ambiente polarizado, o enfrentamento de adversários políticos também fortalece a divisão entre “nós” e “eles” e consolida a identidade dessas comunidades.

Quando uma liderança consegue reunir pessoas em torno dessas referências, a relação deixa de depender apenas da popularidade. O público passa a reconhecer naquele discurso suas próprias convicções e encontra motivos para defender posições, compartilhar conteúdos e participar da mobilização eleitoral.

Para essas lideranças, a campanha não começa no período eleitoral. Ela é construída diariamente, na defesa de posições, na disputa de narrativas e na relação com o público. A presença digital deixa de ser apenas uma ferramenta de divulgação e passa a integrar a própria construção da representação política.

Parte dos profissionais de comunicação política ainda parece ignorar essa diferença. Publicar diariamente, apostar em conteúdos virais e acumular seguidores pode ampliar a visibilidade de um candidato, mas não garante votos. Da mesma forma, divulgar agendas, reuniões e projetos aprovados pode prestar contas do mandato sem mostrar ao eleitor quais interesses estão sendo defendidos e como aquela atuação afeta sua vida. Entre acompanhar um político nas redes e escolher seu nome na urna existe um processo de identificação, confiança e reconhecimento. Sem essa conexão, a comunicação pode até alcançar milhões de pessoas, mas dificilmente conseguirá transformar visibilidade em mobilização política.

Os resultados de 2026 colocam esse desafio tanto diante da política tradicional quanto das celebridades e dos influenciadores digitais que pretendem disputar eleições. Não basta produzir vídeos, conquistar seguidores ou acumular visualizações. É preciso construir uma identidade reconhecível, defender posições, estabelecer vínculos com o eleitorado e criar comunidades que compartilhem valores, ideias e causas. Afinal, alcançar milhões de pessoas não significa que elas encontrarão motivos para escolher aquele nome na urna.

Vanessa Marques é pesquisadora, professora e consultora em comunicação política, com mais de 20 anos de atuação no Legislativo, no Executivo, em campanhas e em mandatos. É mestra em Indústrias Culturais e Comunicação pela Universitat Politècnica de València, na Espanha, mestra em Comunicação Digital pelo IDP, em Brasília, e pós graduada em Economia e Ciência Política. É coautora de livros, autora de artigos de opinião e publicações científicas, com atuação voltada à comunicação estratégica, mobilização e posicionamento público.

Artigo originalmente publicado no Congresso em Foco: https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/123216/nova-geracao-de-influencers-politicos-desafia-a-politica-tradicional

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