A marmita de Zema e o fracasso da simplicidade performática

A tentativa de Romeu Zema de transformar uma marmita em símbolo de simplicidade produziu o efeito contrário nas redes sociais. Em vez de fortalecer identificação popular, a cena virou meme, ironia e desgaste de imagem diante da enxurrada de críticas.

O episódio ajuda a compreender um problema recorrente da comunicação política contemporânea. Nem toda performance de autenticidade consegue produzir reconhecimento social legítimo.

A política digital passou a valorizar proximidade, espontaneidade e aparência de vida comum. Lideranças tentam cada vez mais construir a imagem de “gente como a gente” para reduzir a distância simbólica entre governantes e população. O problema aparece quando o gesto parece excessivamente calculado ou desconectado da percepção pública.

No caso de Zema, a marmita não produziu identificação. O gesto pareceu menos cotidiano e mais peça de pré-campanha, por isso virou piada em vez de ativo político.

A comunicação política contemporânea opera sob lógica de hiperexposição e julgamento permanente.

Bolsonaro explorou esse repertório em 2018 ao apresentar informalidade, improviso e linguagem agressiva como sinais de autenticidade popular. Naquele contexto, a estratégia encontrou um eleitorado disposto a interpretar esse comportamento como ruptura com a política tradicional. No caso de Zema, a tentativa pareceu tardia e excessivamente calculada.

O caso também revela como a política atual funciona cada vez mais pela disputa de símbolos banais do cotidiano. Marmita, café, padaria, roupa simples, vídeo caseiro e linguagem informal passaram a integrar estratégias de construção de autoridade e pertencimento.

A marmita de Zema fracassou porque o eleitor não rejeitou a simplicidade. Rejeitou a tentativa de transformar simplicidade em figurino eleitoral.

Vanessa Marques é consultora política, professora e pesquisadora em comunicação política há 21 anos. Mestre pela Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, e mestre em Comunicação Política pelo IDP. Pós-graduada em Economia e Ciência Política, atua com análise de discurso, cultura política e estratégias de comunicação.

Publicado: https://www.omossoroense.com.br/vanessa-marques-a-marmita-de-zema-e-o-fracasso-da-simplicidade-performatica/

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